Archive for Março, 2008

Prova dos 9 de Vítor Araújo

Vítor Araújo (PE)

Prova dos 9 de Vítor Araújo

Publicado em 31.03.2008
Jovem pianista recifense de 19 anos lança seu primeiro dualdisc (CD e DVD) gravado no Teatro Santa Isabel
José Teles

Na noite de 20 de dezembro, do ano passado, o pianista Vítor Araújo deixou o Teatro de Santa Isabel chateado. Tinha acabado de apresentar o concerto mais importante de sua (curta) carreira, produzido para a gravação do primeiro DVD e CD pela Deckdisc: “Sou meio perfeccionista, e achei que tinha sido ruim. Cometi algumas falhas técnicas, e falei, sem pensar, coisas que me vieram à cabeça”. Porém, ao ver o vídeo, ele diz que mudou de idéia: “Posso até ter errado, falado bobagem, mas foi tudo espontâneo, e ali é tudo espontâneo, a minha verdade é aquela”, diz o recifense, de 19 anos, que em pouco mais de dois anos de profissional, atraiu a atenção do País inteiro para seu jeito peculiar de tocar piano.
“Provar” é uma palavra que ele usa com freqüência. Ele quer, por exemplo, provar que não há barreira entre o erudito e o popular, entre a MPB e o rock and roll, entre Villa-Lobos e Tom Zé (cujo samba Toc dá título ao dual disc (CD e DVD num único disco) que a Deck lança esta semana), e que o leva para uma série de show no Rio e em São Paulo. Portanto, a foto da capa que o mostra subindo na banco, já com um dos pés no teclado do instrumento é mais uma destas provas: “É verdade, eu falo muito em provar, talvez seja até uma besteira minha, mas subi no piano para provar que o instrumento não é sagrado como grande parte das pessoas acham. É uma atitude provocativa, uma coisa que peguei do programa de (Antônio) Abumjanra na TV Cultura, logo de cara quebro este tabu que se tem com o piano”, explica-se.
No recital Vítor Araújo mescla Villa-Lobos (um dos seus compositores prediletos), com o ecletismo de Tom Zé, o rock da banda inglesa Radiohead, o baião de Luiz Gonzaga, a MPB sofisticada de Chico Buarque, e a música erudita de Edino Krieger e Cláudio Santoro. Ele estréia como compositor, com duas peças Valsa para a lua e Última sessão (esta última composta para um documentário de Wilson Freire). “Minha paixão com Villa-Lobos vem de quando comecei a estudar piano, foi o compositor com o qual mais me identifiquei, e a inspiração para eu não me limitar a um estilo musica. A música de Villa-Lobos é muito híbrida”, diz Vítor Araújo.
Pode-se gostar ou não da forma nada ortodoxa de interpretação de Vítor Araújo. O compositor Marlos Nobre, por exemplo, não gostou do que ele fez com a sua Frevo, encetando uma polêmica que, indiretamente, colaborou para tornar o então adolescente pianista conhecido País afora. Diante dele e de seu piano o que não há é indiferença na platéia. Esta permanece em completo silêncio quando ele executa Comptine d”un outre été, de Yan Tiersen (do filme O fabuloso destino de Amélie Poulain). Não apenas pela suavidade melódica da canção, mas pela entrega do músico. Ele parece possuído, fora de si, com os olhos fechados deixa que a música o leve. É impossível desviar os olhos daquele quase garoto sentado diante de um imponente piano Yamaha: “Costumo dizer que o artista faz sua arte, qualquer que seja ela, por necessidade. Quando toco é como se tivesse sob o poder de uma droga, vou para outro lugar. Porém o objetivo é levar as pessoas junto comigo. Eu sou assim os pés no chão e a cabeça nas nuvens”.
Vítor garante ter continuado com os pés no chão mesmo depois de ter sido contratado pela Deckdisc, uma das maiores gravadoras nacionais. Algo com o qual ele nem sonhava quando começou a ser notado como músico: “Não esperava nunca que isto acontecesse, ainda mais porque faço música erudita, e não é comum que as gravadoras se interessem por este tipo de música. Mas a reação do público vem sendo muito boa. E tiro isto pela quantidade acessos no Myspace da música Paranoid android, que vai ser o single do meu trabalho”, diz ele, que, devido aos vários compromissos, nos próximos meses, viu-se obrigado a trancar o curso de música na UFPE (continua com seus professores particulares, Edson Bandeira de Melo e Andréa da Costa Cavalcanti, com os quais se aperfeiçoa nos mestres, Bach, Beethoven, Chopin etc).
Simples, como os trajes que usa no show (camiseta, jeans e tênis All Star), Vítor Araújo acha que a razão de seu sucesso é por que se mostra como é, sem invenções, nem pretensões: “Talvez eu ainda erre muito, sou muito jovem. Aliás quando cometo um erro técnico, fico depois do remoendo o erro. É tudo muito metafísico esta coisa da forma como eu toco, talvez muito intuitivo, mas o que se vê no palco é a minha verdade”.

fonte: http://jc.uol.com.br/jornal/

MÚSICA II
Um pianista iconoclasta
Publicado em 31.03.2008

O garoto adentra o palco, dirige-se ao piano, põe um pé no banco, outro sob as teclas do instrumento. Extrai delas um acorde forte, sonoro. Em seguida desce, curva-se sobre o piano, comete alguns pizzicatos nas cordas. Quer provar que não há nada misterioso, nem diferente no piano? No piano talvez não, mas nele sim. Não é normal, numa região em que Ivete Sangalo é considerada o supra-sumo da MPB e Saia Rodada lota casa de espetáculos, se ver um teatro repleto para se assistir a um adolescente de 19 anos tocar músicas como a Dança do índio branco, primeira peça do concerto que resultou no dual disc Toc ao vivo no Teatro Santa Isabel (Deckdisc).
Vendo-se o vídeo a primeira comparação que se leva a fazer de Vítor Araújo é com o canadense Glen Gould, não apenas pela iconoclastia comum a ambos, mas pela pegada diferente no instrumento. Vítor, naturalmente ainda tem muito o que aprender, mas não estilo a forjar. Ele possui sua maneira pessoal de tocar, ou melhor de interpretar. A cada peça que apresenta em Toc ele imprime sua marca pessoal. Até sua falas, algumas meio ingênuas, próprias da idade, como quando fala em encontrar Villa-Lobos e Bach nas nuvens (quando toca sua Valsa pra lua), ou quando fala sobre sua fase rock and roll (“Aos cinco anos eu sabia de cor o The wall, do Pink Floyd), e diz um “bosta”, palavra que não se ouve muito em um recital de erudito.
Ele está perfeito em, como diz Vítor, em sua verdade, e a produção do vídeo idem. O Santa Isabel pode até possuir uma acústica boa, mas para gravação de vídeo não é o lugar ideal. Falta espaço para melhor disposição das câmeras. No caso de Vítor Araújo estes obstáculos não foram empecilho para a captação de imagens, em tons azulados, intimistas. E dinâmicas. Ao fim das onze peças (nove no CD) fica a certeza: este garoto vai, muito, longe. (J.T.)

link: http://jc.uol.com.br/jornal

Vitor Araújo tocando Paranoid Android

Paranoid Android do grupo inglês Radiohead que o jovem pianista adorna com as estéticas musicais de Bethoveen, Chopin, Villa Lobos e Bach

Violins lança quarto álbum exclusivo no MySpace Brasil hoje

Violins (GO)

Aclamados pela crítica, os goianos do Violins lançam hoje “Redenção dos Corpos” com exclusividade no MySpace. Todas as faixas do quarto álbum da banda estão disponíveis para audição no http://www.myspace.com/violinsbr. O grupo fez barulho com o trabalho anterior, o denso “Tribunal Surdo” e, segundo Beto Cupertino, vocalista e compositor do Violins, a idéia com o novo trabalho é fazer uma “reflexão da imundície”.

“Não há a sujeira proposital do Tribunal Surdo”, comenta. “Por outro lado, o disco pretende ser uma continuação dos temas propostos no Tribunal, principalmente porque ele fala muito da relação do homem com deus, da culpa, de supostos pecados, da briga que temos sempre pra tentar seguir uma trilha do bem. Ele é, assim, um momento de reflexão sobre toda a imundície que o álbum anterior tratou”.

Dividido em duas partes, “Redenção dos Corpos” tem um momento mais melódico e outro tradicional, com o clássico guitarra-baixo-bateria. “A parte um se baseia em melodias”, explica Cupertino. “Para isso a gente deixou que ela soasse simples, calcada em arranjos sutis, com violões, pianos”. O álbum chega às lojas no dia 21 de março pela Monstro e, no dia 27, a banda faz o show de lançamento em Goiânia.

Links:
http://www.myspace.com/violinsbr

Ciclo de Palestras

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Este ano o Abril Pro Rock também prepara um ciclo de palestras que vão acontecer entre os dias 10 e 11 no auditório da Livraria Cultura, ao lado do shopping Paço Alfândega. São eventos direcionados para as bandas e, no lugar de debates, pessoas experientes no mercado de música independente vão vir ao Recife ensinar como se produz uma banda, como se divulgar na Internet e como manter um veículo independente sobre música, entre outros assuntos. A programação das palestras é que a segue abaixo:

QUINTA-FEIRA (10.04)

14h às 15h
Produção executiva e artística de bandas.
Fabrício Nobre (Monstro Monstro) e Iuri Freiberger (produtor musical)

15h30 às 16h30
Turnês pelo Nordeste.
Anderson Foca (Centro Cultural DoSol Rockbar) e Rafael Bandeira (HeyHo Rockbar)

17h às 18h
Festivais de música independente.
Gustavo Sá (Porão do Rock, Brasília) e Marcelo Domingues (Festival Demo Sul, Londrina)

SEXTA-FEIRA (11.04)

14h às 15h
Distribuição e circulação de bandas na Internet.
Luiz Pimentel (MySpace Brasil) e Fernanda Cardoso (TramaVirtual)

15h30 às 16h30
Mídia independente. Blogs e sites ocupando espaço da imprensa tradicional.
Paulo Terron (With Lasers / Rolling Stone) e Bruno Maia (Sobremusica / Rolling Stone)

17h às 18h
Sistemas de Cooperativa.
Pablo Capilé (Circuito Fora do Eixo, Cuiabá) e Claudão Pilha (A Obra, Belo Horizonte)

Serviço:
Ciclo de Palestras Abril Pro Rock 2008
Quando ?
10 e 11 de Abril, a partir das 14h
Onde ? Livraria Cultura (Paço da Alfâdega, Bairro do Recife)
Quanto ? Grátis

Abril Pro Rock 2008: Começa um novo ciclo

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Quando completou 15 anos de estrada, no ano de 2007, o festival Abril Pro Rock também completou um ciclo. Um período em que surgiu e se firmou como um dos mais importantes festivais de música pop do país, pivô do atual momento de ouro dos festivais independentes do Brasil. Agora, em 2008, começa uma nova fase. Para celebrar este novo momento, o Abril Pro Rock sai do Centro de Convenções e vai para o Chevrolet Hall; com uma aposta ainda maior em atrações internacionais e renovação da cena independente nacional.

O Abril Pro Rock será nos dias 11, 12 e 27 de abril. Nas duas primeiras datas, apresenta as atrações internacionais The Datsuns (Nova Zelândia), New York Dolls (EUA) e a lendária banda de punk hardcore Bad Brains (EUA). Também terá no palco Lobão (RJ), Céu (SP), Autoramas (RJ), Júpiter Maçã (RS), Wander Wildner (RS), Zumbis do Espaço (SP), Mukeka di Rato (ES) e novidades do cenário independente nacional, reforçando o mote da Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin), de que a nova música brasileira surge nesses palcos. Superguidis (RS), Rockassetes (SE), Violins (GO), Pata de Elefante (RS), The Sinks (RN) e Barbiekill (RN) são apenas alguns dos estreantes em eventos desse porte em Pernambuco. A programação completa está anexa a este release.

Neste ano, o Abril Pro Rock passa também a mapear uma nova cena da música independente em Pernambuco. Dando maior prestigio a bandas que fizeram sua grande estréia no festival, em edições passadas. Caso da Vamoz! que figura em horário nobre, fechando em chave de ouro a ótima fase do elogiado segundo disco ‘Damned Rock and Roll’. Também revela nomes promissores para o metal local com a Project 666, banda de trash metal de Olinda; e dá nova sobrevida às novatas Sweet Fanny Adams e Erro de Transmissão, a primeira finalista da última edição do Microfonia e a segunda revelação em festivais locais.

No dia 27 de abril, duas lendas do Heavy Metal chegam pela primeira vez ao Nordeste. Diretamente da Alemanha, Helloween e Gamma Ray trazem para o Brasil a turnê “Hellish Rock 2008”, já famosa por encerrar sempre com as duas bandas juntas no palco, tocando clássicos do Helloween. Será uma grande noite de gala para o público mais fiel ao festival, que não teria oportunidade de assistir um show desse porte no Recife não fosse pelo Abril Pro Rock.

Este ano, o Abril Pro Rock será também sede da primeira reunião do ano da Associação Brasileira dos Festivais Independentes (Abrafin). Com isso, o festival recebe produtores de todos os principais eventos do gênero no país, como o Goiânia Noise, Porão do Rock, Varadouro, etc. Entre as novidades propostas para 2008, o APR aproveita os visitantes para promover também um ciclo de palestras. Encontros didáticos, direcionado para bandas locais, discutindo questões como produção de bandas, turnês, festivais e articulação online. Essas palestras serão nos dias 10 e 11, no auditório da Livraria Cultura ao lado do Shopping Paço Alfândega.

Nas suas primeiras edições, o Abril Pro Rock começou coletando fitas demos K7 das novas bandas da cidade. Neste novo ciclo, o festival surge totalmente inserido no universo da Internet e, junto com a programação, aumenta a participação nas principais redes sociais online, como o MySpace (www.myspace.com/abrilprorock), Fotolog (www.fotolog.com/abrilprorock) e Twitter (www.twitter.com/abrilprorock), além do Orkut e site do festival, mantendo contato maior com o público. O que celebra essa nova fase é um concurso de bandas, que vai escolher duas para fazer parte da programação do festival através do site parceiro Link Musical (www.linkmusical.com.br).

Encerrando esse primeiro ciclo de novidades, pela primeira vez em 16 anos o festival também contou com uma curadoria. Além da produção de Paulo André Pires, Melina Hickson e Sonally Pires, da Astronave, a escolha das bandas independentes contou com a participação do jornalista e crítico de música da Folha de Pernambuco Bruno Nogueira e o editor do site RecifeRock! Guilherme Moura.

O Abril Pro Rock 2008 é apresentado pela Petrobras, com produção da Astronave Iniciativa Culturais, patrocínio do Governo do Estado de Pernambuco, Prefeitura da Cidade do Recife e Nova Schin.

SERVIÇO
Petrobras apresenta Abril Pro Rock 2008
Dias 11, 12 e 27 de Abril
Chevrolet Hall

Ingressos: *
Dias 11 e 12 de abril
R$ 50 inteira, R$ 25 meia-entrada. Ingresso social: R$ 30 + 1kg de alimento não perecível
Camarotes para 10 pessoas: R$ 800 (primeira fila), R$ 600 (segunda fila) e R$ 500 (terceira fila)

Dia 27 de abril
R$ 80 inteira, R$ 40 meia-entrada. Ingresso social: R$ 50 + 1kg de alimento não perecível
Camarotes para 10 pessoas: R$ 1500 (primeira fila), R$ 1000 (segunda fila) e R$ 800 (terceira fila)

* As primeiras 2 mil pessoas que comprarem ingressos para 2 ou 3 dias, juntos, ganham um CD promocional do Abril Pro Rock

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Helloween (Alemanha)

Helloween (Alemanha)

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Gamma Ray (Alemanha)

Gamma Ray (Alemanha)

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Lobão (RJ)

Lobão (RJ)

Na contramão da contradição

Se Lobão fosse um sujeito fácil de ser comprado, compreendido, perdoado até, talvez tivesse nascido com o dom de cantar… boleros. Mas o cara que surgiu no cenário nacional com o Vímana, nos anos 70, que deu um passo à frente como sócio-fundador da Blitz nos 80, que se consolidou como ídolo popular na carreira solo (aqui incluída a parceria com Os Ronaldos), que vivenciou a decadência sem elegância do pop rock nacional dos 90, que às vésperas dos anos 00 se insurgiu contra a indústria e abriu seu bocão pra reclamar, e que agora deu uma trégua porque recebeu um tratamento que julga digno de seu merecimento (e sempre foi a dignidade artística o mote de sua cantilena contra as gravadoras) é encrenqueiro, polêmico e falastrão porque é exatamente isso que se espera do que ele se propõe a fazer: rock, esse estilo em que incomodar é mérito e ser bonzinho demais cheira a picaretagem.

Não é à toa que, à beira dos 50 anos (que vai completar em outubro), o Lobão deste Acústico MTV, projeto notadamente avesso aos ruídos, continua provocando tamanho barulho. É evidente que a aura “do artista que se rendeu novamente ao sistema” é parte intrínseca do processo analítico da obra, a causadora natural da controvérsia prévia, mas quando a música entra em cena traz com ela todas as respostas (e justificativas) necessárias.

Luzes acesas, músicos a postos, tudo o que parecia vício ganha ares de virtude. No palco, no centro das discussões artísticas como deve ser, Lobão é pura urgência e tensão, é a contramão da contradição, é um poeta que se exercita praticando a arte da sutileza das palavras duras e da dureza das palavras sutis: “eu sou a explosão, o exu, o anjo, o rei / o samba-sem-canção / o soberano / de toda a alegria que exista”, destila na apocalítica “El Desdichado II”, tema de abertura do show que tem um bocado de clássicos no set mas não se resume às confirmadas. A fase independente de Lobão (composta por três álbuns de estúdio) rendeu grandes momentos que, finalmente, estão vindo à tona. E até a fase adolescente está representada, com a gravação de “O Mistério”, do Vímana (composta por Lobão, Lulu Santos e Ritchie, emoldurada pela beleza do som de um órgão hammond e do quinteto de cordas convidado para o disco).

As molduras são um ingrediente básico do cenário dadaísta que Zé Carratu preparou para o show registrado em dezembro do ano passado no Novos Estúdios (São Paulo). Já Lobão, esse definitivamente não se enquadra em padrões estéticos banais. Por isso, nada mais certo que ter como o produtor dessa empreitada Carlos Eduardo Miranda, que emprestou sua crença no alt rock, no new folk, no velho rock do Faces e na face vanguardista de Matthew Herbert para embalar as versões acústicas.

O casamento deu tão certo quanto a escolha dos músicos que formam a banda de apoio: Edu Bologna e Luce nos violões, Daniel no baixo, Roberto Pollo nos teclados, Pedro Garcia na bateria e Stephane San Juan, na percussão. Muito concentrados, eles concederam a Lobão o que ele mais precisava para encarar o desafio e a responsabilidade de voltar à indústria que tanto detonou com um trabalho digno de seu talento: segurança. Depois de ralar ensaiando, a banda conquistou um espírito de jam session evidente. A resposta ao bom clima propiciado pelos músicos está evidenciada no vocal de Lobão, que soltou a voz como nunca e coube como poucos no formato acústico.
Apesar de acústico, Lobão entra em cena enfiando o pé na porta, sem cerimônias, com “El Desdichado II”, “Essa Noite Não”, “Décadence Avec Élégance” e a deliciosa e nostálgica “Bambino” (do tempo dos Ronaldos, em magnífica interpretação). A partir da quinta faixa, “Revanche”, o clima intimista invade o salão, na romântica “Vou te Levar” e na grandiloqüente “Quente”, ambas com o apoio de um quinteto de cordas que criou uma tensão espetacular e uma atmosfera transcendental no ambiente –e que, de leve, remetem ao maravilhoso som de Unledded, de Jimmy Page e Robert Plant.

Depois de respirar um ar mais erudito, vem o momento de inspiração alt country com “Por Tudo que For” e “Chorando no Campo” (com direito a show de precisão no banjo de Edu Bologna), a circense “Que Língua Falo Eu” (de O Inferno é Fogo, de 2001), os eternos clássicos “Noite e Dia” e “Me Chama”, o hit em potencial “Você e a Noite Escura” (uma pérola do álbum de 2005 Canções Dentro da Noite Escura, com um ar psicodélico); novamente com o reforço do quinteto, “A Queda” (na qual se destaca a qualidade da percussão discreta de San Juan), “A Vida é Doce” (com um arranjo lindo), “Pra Onde Você Vai” e “O Mistério” compõem o ciclo mais contemplativo e viajandão do disco.

O grand finale convida para a dança de saloon, a partir da versão violão para “Canos Silenciosos” (na qual a banda está tão à vontade que parece estar tocando na sala de casa), as deliciosas releituras para “Rádio Blá” e “Corações Psicodélicos” e uma canção arrebatadora de amor interpretada ao lado de três integrantes da banda convidada Cachorro Grande. Roqueiros de carteirinha fazendo baladas? É a cara de Lobão, na contramão da contradição (a Cachorro Grande, aliás, é uma das estrelas das cenas extras do mais novo DVD acústico da MTV, que inclui ensaios, o processo criativo e detalhes técnicos de cenário e iluminação, além de erros na gravação e o falante Lobão explicando detalhes da obra integram os extras e o making of).

Lobão pode não ser um cara fácil, mas difícil mesmo é pensar em rock brasileiro sem Lobão.
Marcelo Ferla

Escute: Essa Noite Não

Pata de Elefante (RS)

Pata de Elefante (RS)

Depois de ser considerada “a salvação da música instrumental brasileira” pela revista Bravo! (edição de julho de 2005) e passados cinco anos de estrada, 400 shows pelo Brasil, participação em importantes festivais, músicas em longas-metragens, documentários e programas de TV, a Pata de Elefante lança seu novo disco, Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulha.

O novo trabalho traz 18 faixas que soam como crônicas sem palavras, histórias contadas a partir das melodias. As “canções” passeiam por referências que são primordiais na concepção do grupo: blues, soul, surf music, psicodelismo e rock feito por nomes como Eric Clapton e The Band na virada dos anos 60 para os 70. Há uma alternância de climas e ritmos, mas é explícita a unidade da obra.

Como já ocorreu no primeiro disco, todas as músicas são assinadas individualmente por Gabriel Guedes, Gustavo Telles e Daniel Mossmann. Para dar às “canções” o que cada uma pedia, a Pata de Elefante contou com a participação especial de Luciano Leães (teclados), Márcio Petracco (pedal steel e bandolim), Alexandre “Papel” Loureiro (bateria), Júlio Rizzo (trombone), Anjinho (trompete), Rodrigo Siervo (saxofone), Vicente Guedes e Pedro Hahn (percussão) e Lúcio Vassaratt (cítara).

Um Olho no Fósforo, Outro na Fagulha chega trazendo outras boas notícias: suas músicas serão apresentadas em 2008 em shows por seis Estados brasileiros (São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia e Ceará) através do projeto Instrumental RS, aprovado pelo Ministério da Cultura e pelo programa Petrobrás Cultural. Além disso, as músicas Hey! e a faixa-título incluíram a Pata de Elefante no novo mapa da produção artística e intelectual brasileira: o grupo é um dos 58 selecionados do Programa Rumos Música, do Itaú Cultural. Por conta disso, o grupo irá participar da gravação de um DVD em São Paulo e terá seu show, músicas e material de apresentação distribuído para instituições culturais, educacionais, emissoras de rádio e veículos de comunicação, no Brasil e no exterior, em português, espanhol, inglês e francês

No mais, é colocar logo esse disco no player e curtir as texturas, timbres, climas, ritmos e loucuras das canções produzidas pela Pata de Elefante em parceria com Vicente Guedes. E prepare-se para uma viagem sensorial.

The Datsuns (Nova Zelândia)

The Datsuns (Nova Zelândia)

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Escute: MF from Hell

Escute: Blacken My Thumb